O extrato de combustível chegou e o número não fecha com nada que você consegue explicar. Você sabe quantos litros entraram no tanque. Você sabe quantas horas a embarcação operou. Mas entre esses dois números existe uma lacuna que nenhum relatório atual consegue preencher: você não sabe se o consumo é normal para o tipo de missão que aquela embarcação faz, ou se está jogando diesel fora todo dia sem perceber.
Essa é a dor de quem opera frota portuária sem benchmark. Não é falta de atenção. É falta de referência. E sem referência, qualquer número parece aceitável.
O que "consumo normal" significa numa frota portuária
Consumo de diesel em embarcações de apoio portuário não é um número fixo. Ele varia conforme o tipo de missão, o porte do motor, o regime de operação e as condições do canal. Isso significa que comparar o consumo da sua lancha de apoio com o de um rebocador de bollard pull não diz nada útil. O que importa é comparar a embarcação com o benchmark correto para o seu tipo de operação.
As variáveis que definem o consumo esperado são: cilindrada e potência nominal do motor (HP ou kW), regime de rotação praticado na missão (RPM médio operacional), tipo de missão (transferência de prático, manobra de reboque, standby, deslocamento em canal) e configuração de hélice.
O consumo de diesel de uma embarcação portuária não é alto ou baixo em termos absolutos. É alto ou baixo em relação ao que aquele motor deveria consumir naquela missão, naquele regime de rotação.
Faixas de referência por tipo de missão e porte de motor
Os dados abaixo são faixas reais anonimizadas, consolidadas a partir de operações em estuários e canais portuários brasileiros. Não são estimativas de fabricante nem projeções teóricas.
Lanchas de apoio e praticagem (motores entre 300 e 600 HP por eixo):
- Missão de transferência em canal (velocidade moderada, 1.200 a 1.800 RPM): 40 a 75 L/h por motor
- Deslocamento rápido ou aproximação a navio (1.800 a 2.400 RPM): 80 a 130 L/h por motor
- Standby em ponto fixo com motor em marcha lenta (600 a 900 RPM): 8 a 18 L/h por motor
Rebocadores portuários (motores entre 800 e 1.600 HP por eixo):
- Manobra de atracação com carga de bollard (regime de força, 1.400 a 2.000 RPM): 120 a 210 L/h por motor
- Deslocamento em canal sem carga (900 a 1.400 RPM): 55 a 100 L/h por motor
- Standby aguardando manobra (600 a 900 RPM): 15 a 30 L/h por motor
Embarcações de apoio e serviço (motores entre 150 e 300 HP por eixo):
- Operação normal em canal (1.200 a 1.800 RPM): 20 a 45 L/h por motor
- Standby ou baixa velocidade: 6 a 14 L/h por motor
Se o consumo registrado na sua frota está consistentemente acima do teto dessas faixas para o regime de operação equivalente, há desperdício mensurável. A questão é identificar a causa antes de aprovar qualquer ação corretiva.
Onde o consumo sai da faixa sem que ninguém perceba
Existem três causas principais que empurram o consumo para fora da faixa normal sem gerar nenhum alarme visível:
Hélice fora do ponto de projeto. Um hélice subdimensionado ou com passo incorreto força o motor a trabalhar fora da curva de torque ideal. O motor consome mais diesel para entregar a mesma força propulsiva. Esse desvio não aparece no tacômetro, não acende luz nenhuma no painel e não gera reclamação do comandante, porque a embarcação se move normalmente. Só aparece no extrato de combustível, e mesmo assim parece "variação normal". Uma análise de cruzamento entre RPM e torque em campo identificou, no Porto de Santos, um desvio de hélice que gerava 7,6% de consumo desnecessário em uma lancha de apoio portuário, comprovado por isolamento de variáveis em operação real.
Comportamento de piloto fora do padrão. A diferença de consumo entre dois pilotos na mesma embarcação, na mesma rota, pode chegar a 15 a 20%. Aceleração brusca, rotação mantida acima do necessário para a velocidade de canal e uso incorreto do manete em manobras são os principais vetores. Sem dados individuais por turno, esse desvio se dilui na média da frota e nunca é endereçado.