Diesel a R$ 7,20 o litro. Contrato de disponibilidade de cinco anos assinado. E, no fim do trimestre, a margem chegou menor do que a planilha prometia, sem que ninguém saiba apontar exatamente onde ela vazou. A resposta reflexa costuma ser a mesma: "o diesel subiu". O diesel quase sempre subiu. Mas ele raramente é a explicação completa, porque na maioria das operações de apoio portuário o combustível é menos da metade do custo real de manter uma embarcação na água.
O problema não é falta de controle. É que o custo mais fácil de enxergar acabou virando o único que se acompanha. O extrato de abastecimento chega todo mês, redondo, fácil de ler. Já tripulação, manutenção, docagem, seguro e depreciação vivem em planilhas diferentes, centros de custo diferentes, meses diferentes. Ninguém nunca soma tudo e divide pelas horas que a embarcação de fato operou. E é essa conta, o custo real por hora operada, que separa quem sabe precificar um contrato de quem descobre a margem só depois que ela já foi embora.
Os seis blocos que compõem o custo real por hora
O custo por hora de uma embarcação de apoio não é um número que alguém entrega pronto. É uma conta que você monta somando seis blocos de custo anual e dividindo pelo total de horas operadas no ano. A fórmula é simples de enunciar e reveladora quando preenchida:
Custo real por hora = (diesel + tripulação + manutenção + docagem + seguro + depreciação) ÷ horas operadas no ano
O que torna a conta poderosa não é a matemática, é o que ela obriga você a enxergar. Cinco dos seis blocos continuam correndo mesmo com o motor desligado. Vamos a cada um.
Diesel. O único custo que varia diretamente com a operação e o único que a maioria das frotas acompanha de perto. Para uma embarcação de porte médio consumindo 80 L/h em regime intensivo, é a maior linha isolada, mas quase nunca é maioria do total.
Tripulação. Comandante, maquinista e marinheiros em regime de turnos para cobrir operação contínua. É um custo fixo, corre com a embarcação atracada ou navegando, e em operação 24 horas costuma ser a segunda maior linha da conta.
Manutenção. A soma da preventiva programada com a corretiva. A preventiva é previsível. A corretiva não tem teto e não avisa quando chega. Numa frota gerida no modo "conserta quando quebra", esse bloco é o que mais estoura o orçamento anual.
Docagem. O custo de doca seca periódica, casco, pintura anti-incrustante, inspeções de classe, amortizado pelo intervalo entre docagens. Some some, mas some fatiado ao longo dos anos.
Seguro. Casco e máquinas mais responsabilidade civil (P&I). Custo fixo anual que independe totalmente das horas operadas.
Depreciação. A perda de valor da embarcação ao longo da vida útil. Não sai do caixa todo mês, mas é custo real: é a parcela do capital investido que se consome a cada ano de operação. Ignorar a depreciação é o erro que faz uma operação parecer lucrativa até a hora de repor a embarcação.
Um exemplo trabalhado que fecha a conta
Números soltos não convencem ninguém na reunião de orçamento. Então vamos preencher a fórmula com um caso realista: uma lancha de apoio portuário de porte médio, operando 220 horas por mês, ou seja, 2.640 horas no ano, com diesel a R$ 7,20/L.
| Bloco de custo |
Custo anual |
Participação |
| Diesel (80 L/h × 2.640 h × R$ 7,20) |
R$ 1.520.640 |
50,5% |
| Tripulação (turnos, operação contínua) |
R$ 660.000 |
21,9% |
| Manutenção (preventiva + corretiva) |
R$ 360.000 |
12,0% |
| Depreciação |
R$ 240.000 |
8,0% |
| Seguro (casco + P&I) |
R$ 135.000 |
4,5% |
| Docagem amortizada |
R$ 95.000 |
3,2% |
| Total anual |
R$ 3.010.640 |
100% |
Divida o total pelas 2.640 horas operadas e o custo real por hora aparece: R$ 1.140 por hora operada.
Repare no que aconteceu. O diesel, o número que quase todo gestor usa sozinho para pensar em custo, é R$ 576 por hora. Se a precificação do contrato ou a leitura de margem partiu só desse número, ela ignorou R$ 564 por hora de custo real, praticamente o mesmo valor do combustível. Em regiões ou meses com diesel mais barato, ou em embarcações com utilização menor, a fatia do combustível cai para a faixa de 35% a 45%, e o peso dos outros cinco blocos fica ainda mais evidente.
A armadilha das horas: por que a ociosidade encarece cada hora
Há uma sutileza na fórmula que muda tudo: o denominador. Custo por hora operada usa as horas em que a embarcação estava disponível e gerando receita, não as horas de motor ligado.
Isso importa porque cinco dos seis blocos são fixos. Tripulação, manutenção programada, docagem, seguro e depreciação acontecem quer a embarcação opere 220 horas no mês, quer opere 140. Quando as horas operadas caem, esse custo fixo se espalha por menos horas, e o custo por hora sobe, mesmo sem gastar um centavo a mais.
Pensa assim: pegue o mesmo exemplo e imagine que a frota teve 25% de ociosidade não planejada, operando 1.980 horas em vez de 2.640. O diesel cai proporcionalmente, porque se queima menos combustível. Mas os R$ 1.490.000 de custos fixos continuam iguais. Recalculando, o custo por hora operada sobe de R$ 1.140 para cerca de R$ 1.315. A embarcação ficou 15% mais cara por hora sem que nada tenha piorado no motor. Ficou mais cara só porque trabalhou menos.
Essa é a razão pela qual reduzir parada não planejada e ociosidade é, muitas vezes, uma alavanca de custo mais forte do que economizar combustível. O detalhamento de quanto uma hora parada custa de verdade está no post sobre o que uma embarcação de apoio perde por hora de doca não planejada.
O que fazer com o número depois de calculá-lo
Ter o custo real por hora na mão muda três decisões que antes eram tomadas no escuro.
Precificação de contrato. Quem sabe que a hora custa R$ 1.140, e não R$ 576, precifica com margem real. Quem usa só o diesel corre o risco de fechar um contrato de disponibilidade de anos com margem que existe só na planilha.
Comparação entre embarcações. Com a mesma fórmula aplicada a cada casco, dá para ver qual embarcação da frota tem o pior custo por hora e por quê. Às vezes é diesel, às vezes é manutenção corretiva recorrente, às vezes é ociosidade. Cada causa pede uma ação diferente. Como isolar o motivo de duas embarcações parecidas custarem diferente está detalhado no post sobre custo total de propriedade de uma embarcação de apoio.
Justificativa de investimento. Quando você sabe o custo por hora, qualquer iniciativa de eficiência passa a ter retorno mensurável. Uma redução de 10% no diesel do exemplo vale R$ 152.000 por ano por embarcação. Uma redução de ociosidade que devolva 15 horas por mês à operação dilui custo fixo e melhora a margem sem gastar nada.
O ponto cego de todas essas três decisões é o mesmo: quase nenhum gestor tem, com precisão, o consumo real por hora de cada embarcação, a variação entre comandantes ou o histórico de manutenção somado à hora que o causou. É aí que os dados contínuos do motor entram, não como custo a mais, mas como a fonte que preenche as variáveis mais imprecisas da fórmula. Foi por defender exatamente esse princípio, decisão com dado real em vez de estimativa retroativa, que a plataforma de gestão de frota da EcoPilots foi reconhecida no 4º Prêmio Tribuna ESG na categoria Governança.
O diesel é o custo que grita. Tripulação, manutenção, seguro, docagem e depreciação são os custos que sussurram, e somados sussurram mais alto do que o diesel grita.
O único jeito de não ser surpreendido pela margem
A conta deste artigo você consegue fazer hoje, com os dados que já tem no financeiro, no RH e na apólice de seguro. Não precisa de nenhuma tecnologia para montar a fórmula: precisa de disciplina para somar os seis blocos e coragem para dividir por horas operadas de verdade, não por horas otimistas de planejamento.
O que a tecnologia melhora é a precisão das variáveis que hoje você preenche por estimativa: o consumo real por hora de cada casco, quanto a condução de cada comandante pesa nesse consumo, e quanto da manutenção corretiva era evitável. Quanto mais precisas essas entradas, mais confiável fica o custo por hora, e mais cedo você vê a margem escorregar, ainda a tempo de agir. Se quiser cruzar esse cálculo com o retorno de tornar essas variáveis mensuráveis, o post sobre quanto tempo o monitoramento de motor leva para se pagar mostra a conta com números de uma frota portuária real.
Faça a conta esta semana, uma vez, para uma embarcação só. Some os seis blocos, divida pelas horas que ela realmente operou no último ano e compare o resultado com o número que você usava antes. A diferença entre os dois é o custo que estava lá o tempo todo, operando à sua revelia. Depois de ver esse número uma vez, fica impossível voltar a precificar um contrato olhando só para o extrato do diesel.